Barroco1595

Baco

Caravaggio

O olhar do curador

"Caravaggio revoluciona a iconografia divina ao substituir o idealismo por um realismo cru: os frutos estão podres e o vinho ondula num copo de Murano, evocando a fragilidade dos prazeres terrenos."

Um convite provocador e carnal à devassidão, onde o deus antigo é humanizado sob os traços de um efebo andrógino com unhas sujas e olhar turvo.

Análise
O Baco de Caravaggio é muito mais do que uma simples representação do deus do vinho e da embriaguez. Encomendado pelo Cardeal Del Monte, protetor do artista, este quadro marca a entrada do realismo psicológico na pintura mitológica. Ao contrário das representações renascentistas que idealizavam os deuses no Monte Olimpo, Caravaggio apresenta-nos um Baco que se parece mais com um jovem modelo de estúdio disfarçado. O especialista vê nisto uma interrogação sobre a identidade: não é o deus que vemos, mas um adolescente a desempenhar o papel do deus, uma "mise en abyme" típica do teatro barroco nascente. Para compreender bem o que vemos, é necessário referir o mito de Dioniso (Baco para os Romanos), deus da loucura, da fertilidade e do vinho. Aqui, o mito é reduzido a uma dimensão humana e quase banal. O jovem estende-nos uma taça de vinho, mas a sua expressão não é a de uma divindade vitoriosa. Parece antes mergulhado numa espécie de langor melancólico, convidando o espetador a uma comunhão dos sentidos. Não é a potência divina que é celebrada, mas o instante fugaz do gozo sensorial, ameaçado pela inevitável decadência física. A Análise do especialista sublinha a dualidade constante entre a imortalidade do deus e a mortalidade do modelo. Caravaggio utiliza a mitologia como pretexto para explorar a natureza humana. O drapeado branco que envolve o rapaz é uma reinterpretação moderna das togas antigas, mas a sua textura evoca os lençóis de uma cama desfeita. O vinho não é apenas um atributo divino, é um agente de transformação da alma, capaz de levar tanto ao êxtase como ao embrutecimento. Esta ambiguidade está no cerne da revolução caravaggesca. Finalmente, a obra é uma meditação sobre a vaidade. O cesto de frutos em primeiro plano, com as suas folhas murchas e maçãs bichadas, é uma "natureza morta" (memento mori) que grita a passagem do tempo. O deus da eterna juventude é confrontado com a realidade da podridão. Caravaggio diz-nos que mesmo na embriaguez e na beleza mais pura, a morte já está a atuar. É esta tensão entre a carne firme do adolescente e os frutos que se estragam que dá ao quadro a sua força dramática inigualável.
O Segredo
O primeiro segredo desta tela encontra-se no coração da garrafa de vinho à esquerda. Em 1922, e novamente com tecnologias de imagem modernas em 2009, os restauradores descobriram um minúsculo autorretrato de Caravaggio refletido no vinho. Vê-se o artista, com cerca de vinte anos, de pé diante do seu cavalete. Este detalhe, quase invisível a olho nu, confirma o desejo do artista de se inserir fisicamente na sua obra, esbatendo a fronteira entre o criador e a sua criação. Outro segredo diz respeito às unhas do modelo. Se olharmos atentamente para a mão que segura a taça de vinho, nota-se sujidade por baixo das unhas. Para um deus do Olimpo, isto é uma afronta total às regras do decoro clássico. Isto prova que Caravaggio não pintava arquétipos, mas jovens das ruas de Roma que levava para o seu estúdio. Este realismo social era, na época, considerado escandaloso pelos puristas, mas constituía a assinatura revolucionária do pintor. A taça de vinho em si esconde um segredo de física. Observam-se ligeiras ondulações na superfície do líquido, como se a mão do modelo tremesse. Alguns especialistas sugerem que isto ilustra o estado de embriaguez do próprio Baco, ou mais provavelmente, a fadiga do modelo forçado a manter a pose durante horas. Este detalhe captura um instante de movimento real dentro de uma imagem fixa, um conceito muito à frente do seu tempo que prefigura o cinema. O modelo, muitas vezes identificado como Mario Minniti, amigo e presumível amante de Caravaggio, esconde um segredo sobre a sua cabeleira. A peruca de uvas pretas parece demasiado pesada e ligeiramente desalinhada, revelando a realidade do disfarce. Caravaggio deixa intencionalmente pistas para mostrar que a cena é uma mascarada. Este segredo reforça o aspeto erótico e subversivo da obra: o cardeal Del Monte apreciava particularmente estes jogos de disfarces efébicos que desafiavam a moral da Igreja. Finalmente, o segredo da mão esquerda. Baco estende o vinho com a mão esquerda, o que, na tradição iconográfica da época, era frequentemente associado à "sinistralidade" ou à imoralidade. No entanto, a explicação poderá ser mais técnica: Caravaggio utilizava provavelmente um espelho para pintar, o que invertia a imagem. Este "segredo do espelho" é uma teoria-chave para explicar a precisão quase fotográfica do pintor, que não utilizava desenhos preparatórios mas projetava a realidade diretamente na sua tela.

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Instituição

Galerie des Offices

Localização

Florence, Itália