Classicismo1672

Eneias em Delos

Claude Lorrain

O olhar do curador

"O rei Anio mostrando a Eneias e seus companheiros a oliveira e a palmeira sagradas, símbolos do nascimento divino."

O testamento da paisagem clássica: uma meditação luminosa sobre a história, o destino e a harmonia universal.

Análise
Pintada em 1672, esta obra representa o auge da "paisagem ideal" de Claude Lorrain. Claude não se limita a ilustrar a Eneida de Virgílio; ele constrói uma cena onde a natureza é purificada pela razão clássica. O episódio mostra Eneias, fugindo de Troia, fazendo escala em Delos. O estilo é marcado por uma luz zenital de uma doçura incomparável, banhando as ruínas antigas numa aura de nostalgia e renovação. A técnica de camadas sucessivas cria uma profundidade atmosférica onde o ar parece palpável. Psicologicamente, a obra explora a "pietas" romana. Eneias procura a sua pátria futura nos sinais do passado. O contraste entre as estruturas arquitetónicas e a fragilidade das personagens sublinha a pequenez do homem perante o destino. O classicismo de Lorrain reside na capacidade de ordenar o caos do mundo numa arquitetura visual serena. É uma pintura de silêncio e dignidade, concebida para a contemplação intelectual prolongada. A luz atua como uma metáfora da orientação divina na jornada humana. A influência desta tela foi imensa nos jardins ingleses do século XVIII. Lorrain sintetiza décadas de observação da "campagna" romana para extrair uma quintessência poética. A interação entre o templo circular e o porto simboliza a aliança entre a fé e o movimento da existência. A precisão da flora, embora idealizada, testemunha um conhecimento naturalista rigoroso ao serviço de uma visão metafísica do mundo antigo.
O Segredo
Um segredo de conservação reside no uso do lapis-lazúli para as distâncias. Análises espectroscópicas revelaram que Claude usava diferentes qualidades de ultramar para simular a difração da luz. Outro mistério envolve o templo à esquerda: embora a cena se passe em Delos, Claude copiou o Panteão de Roma, um anacronismo voluntário para ligar a narrativa ao imaginário dos seus patronos italianos. Radiografias mostraram que o grupo de personagens estava inicialmente mais à direita. Claude moveu Eneias para o centro para que o seu manto vermelho servisse de ponto focal cromático. Diz-se também que a palmeira central é uma homenagem codificada aos relatos de viagem à Terra Santa que Claude estudava para enriquecer as suas paisagens mitológicas.

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Instituição

National Gallery

Localização

Londres, Reino Unido