Impressionismo1880

Mulher em sua toalete

Berthe Morisot

O olhar do curador

"Note a virtuosidade com que Morisot trata o espelho: ele não apenas reflete o rosto, mas absorve toda a atmosfera da sala. A fronteira entre a carne, o cetim do vestido e o vidro desaparece em favor de uma vibração luminosa pura."

Obra-prima da intimidade impressionista, esta tela de 1875 captura um momento de graça suspensa onde luz e matéria se fundem. Morisot afirma seu gênio do toque livre, transformando um ritual cotidiano em uma sinfonia de brancos e reflexos prateados.

Análise
Nesta obra, Berthe Morisot explora o tema da "toilette", um assunto predileto dos impressionistas, mas faz isso com uma sensibilidade especificamente feminina que evita todo voyeurismo. Ao contrário de seus colegas masculinos como Degas, Morisot pinta aqui uma introspecção. A jovem, vista de costas, não se oferece ao olhar do espectador, mas se concentra em seu próprio reflexo, criando uma bolha de intimidade inviolável. A paleta é uma lição de colorismo. Morisot utiliza uma infinidade de nuances de branco, cinza-pérola e azuis pálidos para estruturar o espaço. Esses tons "não-cores" captam a luz natural que parece emanar da própria tela. O cabelo loiro da modelo torna-se o ponto focal quente que equilibra a frieza aparente das tintas circundantes. Cada pincelada é uma afirmação de independência estilística. A artista brinca com a ambiguidade das texturas. O cetim do vestido, o pó de arroz sobre a mesa e a pele da jovem são tratados com a mesma rapidez de execução, criando uma unidade visual onde tudo parece em movimento. Esta técnica, muitas vezes criticada na época como "inacabada", é na verdade uma tentativa ousada de capturar a imediatez da sensação. Morisot não pinta objetos, pinta o ar que circula entre eles. Finalmente, a obra inscreve-se numa tradição que remonta ao século XVIII francês, lembrando as cenas de boudoir de Fragonard, mas despojadas de sua frivolidade erótica. Morisot ancora sua personagem na modernidade burguesa do final do século XIX, onde o quarto se torna o santuário da mulher moderna. É uma celebração da vida doméstica como um espaço de liberdade poética.
O Segredo
Um dos segredos mais fascinantes reside na identidade do modelo. Embora Morisot muitas vezes pintasse seus parentes, aqui trata-se de um modelo profissional, uma raridade para ela neste período. Esta escolha permitiu-lhe experimentar com uma liberdade pictórica aumentada, pois não estava presa pela necessidade de render um retrato fiel de um familiar. Um segredo técnico maior concerne ao uso da preparação do suporte. Morisot deixava muitas vezes partes da tela virgens, utilizando a cor natural do fundo para sugerir volumes ou transparências. Se olharmos de muito perto, percebemos que algumas zonas do vestido são constituídas apenas por alguns traços de pincel sobre um fundo claro, uma economia de meios que prefigura a abstração moderna. O quadro foi considerado durante muito tempo como um simples exercício de estilo antes que análises recentes revelassem seu alcance subversivo. No contexto de 1880, pintar uma mulher penteando-se sozinha, sem a ajuda de uma criada, era um sinal de modernidade e autonomia social. Morisot retrata uma mulher que se prepara para si mesma, subvertendo os códigos do nu acadêmico. Finalmente, existe um segredo ligado ao espelho. Se seguirmos as linhas de perspectiva, o reflexo não deveria ser visível do ângulo onde se encontra o espectador. Morisot deformou deliberadamente o ângulo de reflexão para incluir o rosto na composição. Este "erro" é na verdade uma escolha narrativa voluntária para forçar o vínculo entre o interior psicológico da mulher e o espaço exterior.

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Que particularidade técnica, considerada revolucionária e subversiva para a época, Berthe Morisot utiliza no tratamento do vestido e do fundo desta obra?

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Instituição

Art Institute of Chicago

Localização

Chicago, Estados Unidos