Classicismo1635

O Rapto das Sabinas

Nicolas Poussin

O olhar do curador

"O quadro retrata o momento em que Rómulo, fundador de Roma, levanta o seu manto para dar o sinal para o rapto das mulheres sabinas durante uma festa religiosa. Em primeiro plano, os soldados romanos agarram as mulheres numa coreografia de luta e desespero. Nota-se particularmente a oposição entre o pânico das vítimas e a impassibilidade da arquitetura clássica ao fundo."

Manifesto do classicismo francês, esta obra de Nicolas Poussin ilustra o episódio fundador da Roma antiga com um rigor intelectual sem precedentes. Através de uma encenação teatral e de uma disciplina geométrica rigorosa, Poussin transforma um caos violento numa meditação sobre a razão de Estado, a necessidade histórica e a ordem moral.

Análise
A análise profunda desta tela revela a ambição de Poussin de rivalizar com os grandes modelos da Antiguidade e do Renascimento. Historicamente, a obra pertence ao período em que o artista, instalado em Roma, desenvolve o seu estilo "heroico". Não se trata apenas de uma narrativa mitológica, mas de uma reflexão sobre a fundação de uma civilização através da força. A técnica de Poussin aqui é exemplar: utiliza um toque preciso e cores primárias para estruturar o espaço. O contexto mitológico baseia-se nos textos de Plutarco e Tito Lívio. O mito conta que os primeiros romanos, carecendo de mulheres, convidaram os sabinos para jogos a fim de melhor os saquear. Poussin trata este assunto com uma psicologia complexa. Cada grupo de personagens encarna uma emoção diferente: terror materno, resistência física ou submissão forçada. Esta diversidade humana está, no entanto, sujeita a uma vontade superior, a de Rómulo. Ao nível estilístico, Poussin rejeita o tumulto desordenado do barroco italiano contemporâneo em favor de uma clareza narrativa absoluta. Trabalhava com pequenas figuras de cera dispostas numa caixa ótica para estudar a luz e as sombras, um método que confere às suas personagens uma qualidade escultural, quase marmórea. Esta técnica permite atingir um "decoro" onde cada gesto possui um significado retórico preciso. Finalmente, a obra explora a tensão entre a selvajaria do ato e a nobreza da forma. Poussin parece dizer que a arte tem o poder de magnificar o horror para dele extrair uma verdade universal. A presença de templos imaginários ao fundo sugere que deste crime nascerá o Império e a paz. É uma visão estoica da história onde o sacrifício individual é o preço da grandeza coletiva.
O Segredo
Um segredo fascinante diz respeito ao método de criação de Poussin. Análises de raios X confirmaram o uso da "grande machine": ele construía uma maquete de cena com figuras articuladas para fixar as poses. Foram descobertas marcas de raspagem na preparação da tela que mostram como o artista ajustou a perspetiva arquitetónica com precisão de geómetra. Cada edifício está rigorosamente alinhado com um ponto de fuga central. Outra anedota revela a influência da escultura antiga nos rostos. As expressões de terror das sabinas não são tiradas de observações reais, mas são citações diretas de máscaras de tragédia antiga e relevos romanos que Poussin estudava diariamente em Roma. Esta ligação orgânica com a arqueologia faz do quadro um objeto de saber tanto quanto de prazer visual. Recentemente, a restauração iluminou o simbolismo cromático. O vermelho vivo do manto de Rómulo não é uma simples escolha estética; é um pigmento caro que simboliza o sangue do sacrifício e o poder imperial. Inversamente, o azul utilizado para certos vestidos é mais frio, marcando a distância emocional e a pureza das vítimas. Estas escolhas eram cuidadosamente ponderadas para reforçar a mensagem política da obra.

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Instituição

Metropolitan Museum of Art

Localização

New York, Estados Unidos