Classicismo1480

São Francisco em Êxtase

Giovanni Bellini

O olhar do curador

"O quadro mostra São Francisco de Assis saindo da sua gruta, de braços abertos, diante de uma luz celestial invisível. A paisagem circundante, de uma precisão botânica e geológica inaudita, fervilha de símbolos: um burro (humildade), um pastor (o Bom Pastor) e um castelo distante (a Jerusalém celestial)."

Obra-prima suprema do Renascimento veneziano, O Êxtase de São Francisco de Giovanni Bellini redefine a relação entre o homem, o divino e a natureza. Bellini escolhe um naturalismo luminoso onde o milagre não é expresso por raios de fogo, mas através da própria luz da paisagem.

Análise
A análise profunda desta tela revela o génio de Bellini ao integrar o sentimento religioso numa paisagem autónoma. Historicamente, a obra marca a transição da têmpera para o óleo, permitindo gradações de luz e profundidade atmosférica revolucionárias. Francisco não é aqui um asceta torturado, mas um santo em harmonia com o "Cântico das Criaturas". O estilo combina o rigor linear de Mantegna com uma suavidade cromática veneziana. O contexto hagiográfico é aqui subtilmente transformado. Habitualmente, a estigmatização no Monte Alverne é um evento dramático com um serafim. Aqui, Bellini propõe uma interpretação mística: a luz que atinge o santo é a manifestação da presença de Deus na natureza. Detalhes como o loureiro ou a figueira não são meros ornamentos, mas referências teológicas. A técnica do óleo permite a Bellini render o brilho da água com uma verdade surpreendente. Psicologicamente, a obra explora o estado de êxtase como uma abertura serena da alma. O rosto de Francisco exprime uma aceitação silenciosa. O isolamento do santo neste "deserto" rochoso é equilibrado pela presença familiar da vida pastoral ao fundo, sugerindo que o sagrado não está separado do mundo. É uma obra de transição que anuncia a paisagem moderna. Finalmente, a dimensão bíblica entrelaça-se com a geografia local do Véneto. Bellini usa a paisagem italiana para representar a Terra Santa. A precisão das sombras e a clareza do horizonte testemunham uma observação científica da luz, fazendo deste quadro uma das primeiras grandes paisagens "atmosféricas" da história da arte europeia.
O Segredo
Um dos segredos mais bem guardados refere-se à presença da estigmatização. Durante séculos debateu-se se Francisco carregava as marcas dos cravos. Análises científicas recentes confirmam que Bellini pintou os estigmas nas mãos de Francisco de forma extremamente discreta, quase integrados nas linhas da pele. Isto reforça a ideia de que o milagre é interno e espiritual. Outra descoberta fascinante refere-se ao céu. Os restauradores encontraram vestígios de lapis-lazúli de uma pureza excecional, o que explica a luminosidade quase sobrenatural do azul. Além disso, sob a superfície, foram descobertas mudanças na flora: Bellini substituiu certas plantas por razões puramente simbólicas, provando que cada folha de erva tem uma intenção teológica precisa. A anedota sobre o proprietário original é reveladora. Encomendado provavelmente por Zuan Michiel, o quadro destinava-se à contemplação privada. A pequenez de certos detalhes, como a garça ou o coelho escondido nas rochas, sugere que o espectador devia aproximar-se muito da imagem, transformando a visão num ato de devoção meditativa.

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Instituição

The Frick Collection

Localização

New York, Estados Unidos