Barroco1625

O Desembarque de Maria de Médici em Marselha

Peter Paul Rubens

O olhar do curador

"A atenção recai imediatamente sobre a parte inferior, onde três Nereidas de corpos opulentos emergem das ondas, uma proeza técnica que ilustra a mestria de Rubens na representação da pele húmida."

Apoteose do ciclo Médici, esta obra-prima transforma um evento protocolar numa epopeia cósmica onde terra, mar e céu se unem para celebrar Maria de Médici. Rubens mobiliza toda a sensualidade barroca.

Análise
Esta obra integra o ciclo monumental encomendado por Maria de Médici para o Palácio do Luxemburgo. Rubens enfrentou o desafio de glorificar uma rainha cujo reinado foi marcado por tensões políticas. Para tal, transcende a realidade histórica através da alegoria. A Rainha, com um vestido de brocado de ouro, desce a passarela de uma galeria luxuosa. É recebida pela França personificada, enquanto a Fama voa sobre a cena anunciando o evento ao mundo. O génio de Rubens reside na integração do mito para validar a política. Na parte inferior, Neptuno e as divindades marinhas parecem ter escoltado o navio, garantindo uma travessia segura. Este recurso aos deuses sugere que a autoridade da Rainha é abençoada por poderes naturais e divinos. O mar agitado simboliza a vitalidade e abundância que Maria traz ao reino de França. O contraste entre a rigidez do protocolo e a liberdade selvagem dos corpos marinhos é impressionante. As Nereidas encarnam o ideal de beleza rubensiano. Os seus movimentos contorcidos criam um dinamismo que contrasta com a postura digna da Rainha. Esta justaposição sublinha a ligação entre o mundo cortesão e o mundo mítico da natureza eterna. Rubens utiliza uma paleta cromática de uma riqueza inaudita. Os dourados do navio e os vermelhos profundos misturam-se com os tons irisados dos corpos marinhos. A luz parece emanar da própria Rainha, reforçando o seu estatuto quase divino. A obra encena o nascimento de uma nova era para a França sob uma soberana poderosa. Finalmente, esta análise revela a influência da pintura veneziana em Rubens. O traço é livre e vibrante. O artista não procura a precisão fotográfica, mas o impacto emocional. Unificando os elementos — ar, terra, água — num único movimento ascendente, Rubens cria uma obra total que define a estética barroca no seu auge.
O Segredo
Um dos segredos mais fascinantes reside na identidade das modelos para as Nereidas. Rubens utilizou os traços das suas musas e baseou-se no estudo de corpos reais observados nas suas viagens. A sensualidade destas divindades despertou críticas na época, pois alguns julgaram a nudez demasiado provocante para uma encomenda real. No entanto, é precisamente esta vitalidade carnal que salva a obra da frieza académica. Um segredo técnico refere-se à realização do ciclo. Para cumprir a encomenda de 24 quadros, Rubens organizou uma oficina quase industrial. Embora o mestre tenha concebido todos os esboços e realizado os acabamentos, grande parte da execução foi confiada aos seus assistentes. No entanto, os especialistas concordam que este quadro é um dos que tem mais presença da mão de Rubens, especialmente nas Nereidas. Um detalhe ignorado é a presença dos cavaleiros da Ordem de Malta no navio. Maria chegou sob a sua protecção, e Rubens representa-os com precisão histórica. No entanto, oculta sob o luxo as verdadeiras dificuldades da viagem de Maria, que foi longa e exaustiva, para capturar apenas o instante glorioso da união com a sua nova pátria. Existe também um segredo ligado à perspectiva. Rubens desenhou esta obra para ser vista numa galeria longa e estreita. As anamorfoses ligeiras estão calculadas para que a Rainha continue a ser o ponto focal absoluto, mesmo vista de lado. O artista manipula o olhar do visitante para reforçar a impressão de movimento para a frente. Finalmente, o quadro contém uma subtil crítica política. Ao colocar a França numa posição de acolhimento humilde mas digno, Rubens recorda que, embora a Rainha seja uma convidada prestigiada, está ali para servir o Estado. A tensão entre a obediência à coroa e a potência da nação francesa está delicadamente equilibrada nos gestos das personagens.

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Quiz

Nesta composição, que figura alegórica é representada acolhendo Maria de Médici no cais, e que detalhe específico do vestuário atesta a sua identidade?

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França