Romantisme1819

A Jangada da Medusa

Théodore Géricault

O olhar do curador

"Um amontoado de corpos agonizantes e homens lutando pela sobrevivência numa jangada improvisada, estendendo-se em direção a um ponto ínfimo no horizonte: o navio da salvação, o Argus."

Ícone do romantismo, esta obra monumental transcende um acontecimento trágico para se tornar uma alegoria universal do sofrimento humano e da incompetência do poder.

Análise
Pintada entre 1818 e 1819, "A Jangada da Medusa" marca o nascimento do Romantismo na pintura. O contexto histórico é o de um grande escândalo político durante a Restauração: o naufrágio da fragata Medusa em 1816, devido à incompetência de um capitão nomeado por favor real. Abandonados numa jangada improvisada, 147 homens derivaram durante 13 dias; apenas 15 sobreviveram após terem conhecido a fome, a loucura e o canibalismo. Géricault apodera-se desta tragédia contemporânea para abalar os códigos da pintura de história, que até então apenas tratava de temas antigos ou religiosos. A análise mitológica e histórica revela que Géricault transforma este acontecimento numa "epopeia dos náufragos". Não pinta o momento do naufrágio, mas o do falso alarme: o momento em que os sobreviventes avistam o Argus no horizonte antes de este desaparecer temporariamente. É o paroxismo da tensão entre a esperança e o desespero. A obra torna-se uma metáfora da França de 1819, um país à deriva após a queda do Império, procurando o seu caminho nas trevas da incerteza política. Tecnicamente, a obra é revolucionária pelo seu realismo macabro. Géricault passou meses a estudar membros amputados e cadáveres no seu atelier para reproduzir a cor da carne em decomposição com exatidão científica. A paleta é voluntariamente sombria, dominada por ocres, castanhos e pretos, lembrando o tenebrismo de Caravaggio. O uso do betume da Judeia, embora tenha feito a tela escurecer com o tempo, confere uma profundidade trágica às sombras, acentuando a dimensão escultural dos corpos. A psicologia da obra explora toda a gama de reações humanas perante a morte. Vê-se o desespero absoluto do velho que segura o cadáver do filho, o esgotamento dos moribundos na base da jangada, e a energia desesperada daqueles que se elevam para sinalizar a sua presença. O homem negro no topo da pirâmide humana, Jean-Charles, simboliza uma rutura social: é ele quem carrega a última esperança do grupo. Géricault consegue aqui pintar não heróis, mas uma humanidade nua, despojada de toda a dignidade social, perante a imensidade indiferente do Oceano.
O Segredo

Torne-se Premium.

Desbloquear
Quiz

O que é que os sobreviventes na balsa tentam fazer ao longe?

Descobrir
Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França