Neoclassicismo1832

Retrato de Monsieur Bertin

Jean-Auguste-Dominique Ingres

O olhar do curador

"Admire a renderização hiper-realista das texturas, do reflexo da janela na cadeira de mogno à tensão dos dedos nos joelhos. Ingres transforma um diretor de jornal num ícone de estabilidade política e social."

Verdadeiro "Júpiter da burguesia", este retrato de Louis-François Bertin por Ingres define a ascensão e o poder da classe média sob a Monarquia de Julho. Uma imagem de autoridade absoluta com força escultural.

Análise
Exibido no Salão de 1833, este retrato marca uma viragem na história da arte europeia. Ingres abandona os seus temas mitológicos habituais para confrontar a realidade bruta do seu tempo. Louis-François Bertin não é apenas um amigo do pintor; é o fundador do Journal des Débats, um homem cuja influência mediática pesava nos destinos da França. O quadro retrata uma classe social triunfante. O "mito" aqui não provém da Antiguidade, mas da ideologia burguesa. Bertin é representado como um soberano constitucional do pensamento. Ingres utiliza códigos iconográficos reservados a deuses ou monarcas — como a pose frontal e maciça — para aplicá-los a um homem de casaca preta. Esta sacralização do quotidiano é a grande revolução de Ingres, tornando o traje moderno uma armadura de dignidade. A análise formal revela uma tensão psicológica excecional. O olhar de Bertin parece julgar o espetador tanto quanto este o olha a ele. Ingres trabalhou incansavelmente nesta pose, procurando a expressão exata da autoridade natural. O contraste entre o rosto, tratado com uma precisão anatómica implacável, e o fundo escuro acentua o isolamento majestoso da personagem. Cada ruga torna-se testemunha de uma vida de reflexão. Finalmente, a obra encarna a luta entre o desenho ingresque e a cor romântica. Apesar da sobriedade da paleta, o domínio do traço é aqui levado ao auge. A linha não se limita a encerrar as formas; anima-as com uma tensão interior. É este rigor estrutural que permite ao retrato superar o simples realismo para atingir uma dimensão universal, a do homem de Estado vigilante e inabalável.
O Segredo
O segredo da pose lendária de Bertin é fruto de um acaso disciplinado. Ingres, desesperado por não encontrar a atitude justa, surpreendeu Bertin durante uma animada discussão política. Bertin sentou-se assim para replicar a um interlocutor. Ingres teria exclamado: "Venha amanhã, o seu retrato está feito!". Esta anedota sublinha que o génio de Ingres reside na sua capacidade de reconhecer a "verdade" de um instante fugaz. Outro segredo reside na cadeira. Se o modelo parece tão maciço, é porque Ingres enganou com a perspectiva. A cadeira é ligeiramente pequena demais para o homem, o que acentua por contraste a estatura imponente de Bertin. Esta distorção espacial é uma assinatura do pintor que não hesitava em sacrificar a correção anatómica em prol da força expressiva. O reflexo da luz no mogno é também uma proeza técnica. O quadro quase nunca foi terminado. Bertin, cansado das intermináveis sessões de pose, estava prestes a desistir. Diz-se que a esposa de Bertin teve de intervir para convencer o marido a perseverar. Ingres, por sua vez, chorava frequentemente de frustração, temendo não estar à altura do seu próprio ideal. Este retrato nasceu de uma profunda crise criadora e da angústia perante a modernidade. Um detalhe frequentemente ignorado é a mão esquerda de Bertin. Alguns contemporâneos criticaram estas mãos "em pata de caranguejo". No entanto, esta tensão dos dedos é essencial: expressa a nervosidade contida de um homem de ação. A renderização das unhas e articulações é de um realismo tão cru que chocou os críticos habituados à idealização neoclássica, prefigurando o realismo de Courbet.

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Quiz

Durante a sua exposição no Salon de 1833, a crítica ficou impressionada com o realismo intransigente das mãos de Monsieur Bertin. Que termo foi utilizado por alguns detratores para qualificar estas mãos, sublinhando assim a rutura com a idealização neoclássica?

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França