Renascimento1434

O Casal Arnolfini

Jan van Eyck

O olhar do curador

"O espelho convexo ao fundo é o elemento central: reflete não apenas o casal de costas, mas revela duas testemunhas a entrar na sala, incluindo o próprio pintor. Este detalhe transforma a obra num documento legal visual assinado como "Johannes de eyck fuit hic"."

Verdadeiro enigma visual, este retrato de 1434 é o auge do Renascimento flamengo. Van Eyck utiliza um domínio revolucionário do óleo para imortalizar um contrato social, fundindo realismo fotográfico e simbolismo místico.

Análise
A análise desta obra-prima começa com a identidade dos sujeitos: Giovanni di Nicolao Arnolfini, um rico mercador de Lucca estabelecido em Bruges, e a sua companheira. Considerado durante muito tempo como a celebração de um matrimónio sagrado, o quadro é interpretado hoje por muitos historiadores como um ato jurídico ou um memorial. A precisão das texturas — do veludo do vestido ao pelo do cão — demonstra a invenção do óleo moderno por Van Eyck. O mito mais persistente é o da gravidez da dama. Na realidade, a sua silhueta arredondada e a mão no ventre não significam que espere um filho, mas correspondem aos cânones de beleza e fertilidade da época. Van Eyck utiliza este "mito visual" para sublinhar o dever de procriação. O quarto é aqui uma sala de receção onde a cama de estado expõe o poder financeiro da família Arnolfini. O espaço pictórico está saturado de simbolismo religioso. O candelabro tem uma única vela acesa em pleno dia, simbolizando a presença omnisciente de Cristo. Os rosários de cristal e o espelho, símbolo de pureza, reforçam a ideia de que este interior burguês é um templo de virtude. A fusão entre o profano (o comércio) e o sagrado é total aqui. A perícia técnica revela uma gestão da luz sem precedentes. Van Eyck utiliza a luz para construir o espaço; a luz difusa da janela acaricia as superfícies criando sombras suaves. É uma pintura de paciência, onde a acumulação de camadas translúcidas (velaturas) permite alcançar uma profundidade de cor que ninguém tinha igualado antes. Finalmente, a obra atua como uma ponte entre o espectador e a imagem. Ao colocar a sua assinatura sobre o espelho, Van Eyck sai do anonimato medieval. Afirma o seu papel de testemunha ocular, transformando a pintura num arquivo histórico vivo. Este quadro é uma janela aberta para um instante preciso de 1434, onde a pintura se torna prova da existência humana.
O Segredo
O segredo mais fascinante encontra-se nos dez medalhões que rodeiam o espelho. À lupa, descobrem-se cenas da Paixão de Cristo pintadas com finura microscópica. Isto sugere que o quadro poderia ser um memorial para uma esposa falecida (Costanza Trenta), já que as cenas de vida estão do lado do homem e as de morte do lado da mulher. Outro segredo reside na assinatura: "Johannes de eyck fuit hic 1434". Não é uma assinatura de artista clássica, mas uma atestação de presença legal. Sugere que o pintor era a testemunha oficial de uma união, agindo quase como um notário real. Este uso da arte como documento autenticado é único na história. O cãozinho em primeiro plano oculta um segredo simbólico. Embora represente a fidelidade, os raios X mostraram que Van Eyck adicionou o animal no fim, sem desenho preparatório. As frutas na janela são laranjas, um luxo extremo em Bruges em 1434 que simboliza a riqueza e o fruto proibido do Éden. O espelho mostra que Van Eyck dominava a ótica perfeitamente, pintando reflexos com distorção convexa. Neste reflexo vê-se uma porta aberta e um jardim exterior. Esta mestria sugere o uso de lentes para a composição, antecipando séculos a câmara escura de Vermeer. Finalmente, existe um segredo sobre a luz: Van Eyck pintou partículas de pó a dançar nos raios de luz, quase invisíveis, para demonstrar que a sua técnica podia capturar até o intangível. É uma declaração de poder sobre a matéria e o tempo.

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Instituição

National Gallery

Localização

London, Reino Unido