Renascimento1483-1486

A Virgem das Rochas

Leonardo da Vinci

O olhar do curador

"Obra encomendada pela Confraria da Imaculada Conceição para a igreja de San Francesco Grande em Milão."

Um manifesto do génio de Leonardo, fundindo mistério teológico e observação científica numa paisagem geológica irreal.

Análise
A Virgem dos Rochedos marca o nascimento do sfumato leonardino, uma técnica de sobreposição de veladuras transparentes que elimina a linha rígida em favor da atmosfera. Psicologicamente, a obra explora o encontro apócrifo entre o Cristo Menino e São João Batista durante a fuga para o Egipto. A Virgem Maria ocupa o centro, numa atitude protectora, unindo as figuras através de uma gestualidade complexa: a sua mão esquerda paira sobre Cristo, enquanto o seu braço direito envolve João Batista. O Anjo, de uma beleza andrógina, aponta para o precursor, estabelecendo um diálogo silencioso e místico que rompe com os cânones do Renascimento florentino. A obra insere-se num contexto de fervor religioso milanês, onde o dogma da Imaculada Conceição estava no centro dos debates teológicos. Leonardo situa as suas figuras não num trono celestial, mas numa gruta tenebrosa, símbolo do útero materno e do mistério da Encarnação. A precisão geológica das camadas rochosas e a diversidade botânica no primeiro plano testemunham a obsessão do artista pela "ciência da pintura", onde cada planta e cada pedra representa uma observação da natureza divina colocada ao serviço de uma mensagem espiritual profunda e esotérica.
O Segredo
Um dos maiores segredos reside na existência de duas versões autógrafas. A versão do Louvre, mais precoce, é considerada mais ousada pelo gesto apontado do anjo e pela ausência de halos. Análises recentes de reflectografia infravermelha revelaram "pentimenti" (arrependimentos) significativos na versão de Londres, mostrando que Leonardo tinha inicialmente planeado uma composição totalmente diferente, uma Adoração do Menino mais convencional, antes de regressar ao esquema inicial. Além disso, botânicos identificaram plantas com propriedades medicinais e simbólicas precisas, sugerindo uma ligação entre a natureza e a cura da alma através do sacrifício futuro de Cristo. Outro mistério envolve a iluminação. Ao contrário da luz zenital habitual, a luz parece emanar do interior da própria gruta ou ser filtrada por aberturas distantes, criando um claro-escuro dramático. Estudos de raios-X mostraram também marcas de mãos e dedos nas camadas inferiores de tinta, confirmando que Leonardo utilizava os seus próprios dedos para esbater os pigmentos e alcançar a suavidade suprema da pele. Finalmente, a polémica sobre o pagamento da obra durou mais de vinte anos, forçando Leonardo a executar uma segunda versão para satisfazer os comitentes descontentes com a primeira.

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França