Renascimento1455

A Virgem e o Menino rodeados por anjos

Jean Fouquet

O olhar do curador

"Esta obra constitui o painel direito do Díptico de Melun, encomendado por Étienne Chevalier. A pele de marfim da Virgem, as suas formas esféricas e o contraste violento entre o vermelho dos querubins e o azul dos serafins fazem dela uma das pinturas mais enigmáticas do século XV."

Uma visão sobrenatural e quase geométrica que marca uma rutura radical na história da arte ocidental. Jean Fouquet funde o idealismo do Renascimento italiano com a precisão flamenga para criar um ícone de uma modernidade inquietante.

Análise
Análise do especialista: Esta Virgem não se assemelha a nenhuma outra da sua época. Fouquet abandona o naturalismo terno em favor de uma abstração plástica impressionante. A Virgem é representada como uma rainha celestial, sentada num trono de ourivesaria adornado com pérolas e gemas, mas a sua aparência é a de uma estátua de mármore ou porcelana viva. A palidez extrema da sua pele, quase lunar, contrasta com as cores saturadas dos anjos que a rodeiam, criando uma atmosfera de visão mística em vez de uma cena humana. O contexto histórico é inseparável da figura de Agnès Sorel, a favorita do rei Carlos VII, cujos traços teriam servido de modelo para a Virgem. Esta audácia iconográfica — usar o rosto de uma famosa amante real para encarnar a Mãe de Deus — transforma a obra num monumento simultaneamente religioso e político. O seio descoberto, de uma redondeza perfeita e matemática, não é apenas uma alusão à "Virgem amamentando" (Virgo Lactans), mas também um símbolo da fertilidade e do poder da favorita na corte de França. Os anjos, divididos em serafins azuis e querubins vermelhos, não são meras decorações. Segundo a teologia medieval, os vermelhos simbolizam o amor divino e o fogo, enquanto os azuis representam o conhecimento e a pureza. Ao pintá-los com cores puras, sem matizes de modelação realista, Fouquet sublinha o caráter sobrenatural da cena. Eles pressionam o trono, criando uma tensão espacial que projeta a figura da Virgem em direção ao espetador, reforçando o impacto visual da sua presença soberana. A obra também testemunha a síntese única operada por Fouquet entre as influências nórdicas (o detalhe das joias, a representação das texturas) e as lições aprendidas durante a sua viagem à Itália (a clareza monumental, o interesse pela geometria). Esta capacidade de racionalizar o sagrado através de formas geométricas simples (esferas, cilindros) anuncia, com quatro séculos de antecedência, certas investigações da arte moderna, nomeadamente o cubismo ou o surrealismo.
O Segredo
Os Segredos: O segredo mais famoso deste painel é a identificação da Virgem com Agnès Sorel, "a mulher mais bela do mundo" segundo os seus contemporâneos. Morta em 1450, foi a primeira amante oficial de um rei de França. Étienne Chevalier, o comitente da obra, era um dos seus executores testamentários. O quadro é, assim, uma forma de homenagem póstuma transgressora, imortalizando a beleza da favorita sob os traços da Rainha dos Céus, uma prática que escandalizou muitos observadores posteriores. Análises técnicas aprofundadas revelaram que o rosto da Virgem possui uma estrutura geométrica perfeita. Fouquet utilizou compassos para traçar a curvatura da testa e dos seios, procurando uma "beleza ideal" baseada em proporções matemáticas em vez da observação direta da natureza. Isto explica o aspeto estranho e quase inumano da figura, que parece esculpida em vez de pintada. Outro segredo reside na moldura original do díptico. Outrora estava rodeada de veludo azul bordado com monogramas de pérolas e continha um autorretrato do próprio Jean Fouquet, realizado num medalhão de esmalte (atualmente no Louvre). Foi a primeira vez que um artista assinou a sua obra de forma tão ostensiva e pessoal, afirmando o seu estatuto de intelectual e não apenas de simples artesão. Finalmente, o destino da própria obra é um segredo da história. O díptico permaneceu na igreja de Melun sobre o túmulo de Étienne Chevalier até ao final do século XVIII, antes de ser separado. O painel esquerdo (Étienne Chevalier e Santo Estêvão) encontra-se em Berlim, enquanto esta Virgem está em Antuérpia. Esta separação física ocultou durante muito tempo o diálogo visual pretendido por Fouquet entre o doador, cujo olhar é dirigido à Virgem, e esta aparição celestial congelada.

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Para além do aspecto religioso, que inovação formal e contextual faz desta Virgem de Fouquet uma rutura importante com o naturalismo medieval?

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Instituição

Koninklijk Museum voor Schone Kunsten

Localização

Anvers, Bélgica