Renascimento1451
O Juízo Final
Michelangelo
O olhar do curador
"Situada na parede do altar da Capela Sistina, a obra mostra Cristo rodeado de santos, os eleitos subindo ao céu e os condenados precipitados no inferno de Caronte."
Cume absoluto do Renascimento tardio e do Maneirismo, este fresco colossal retrata o regresso de Cristo Juiz numa tormenta de corpos atléticos e emoções puras.
Análise
Pintado entre 1536 e 1541, vinte e cinco anos após a abóbada da Sistina, "O Juízo Final" inscreve-se num contexto histórico de crise profunda para a Igreja Católica. Roma tinha sofrido o Saque de 1527 e a Reforma Protestante abalava os alicerces da fé. Miguel Ângelo, já idoso e atormentado pela sua própria espiritualidade, responde à encomenda do Papa Clemente VII (confirmada por Paulo III) com uma visão apocalíptica que rompe com o equilíbrio sereno do Alto Renascimento. A obra reflete a inquietude de um mundo em mudança, onde a figura humana já não é o centro harmonioso do universo, mas um átomo apanhado numa tempestade divina.
O contexto mitológico e escritural bebe do Apocalipse de João e dos textos escatológicos. Cristo é aqui representado como um Apolo vingador, um juiz implacável cujo gesto de maldição parece fazer tremer toda a criação. Ao seu lado, a Virgem Maria afasta-se, incapaz de suportar a violência da sentença. As figuras não são meras ilustrações bíblicas; encarnam a luta interior da alma. A explicação do mito desenrola-se através da ressurreição dos corpos: os mortos saem da terra ao chamamento das trombetas angélicas, reintegrando a sua carne para enfrentar o destino eterno, enquanto figuras híbridas como Caronte e Minos importam uma iconografia dantesca ao coração da teologia cristã.
Tecnicamente, Miguel Ângelo revoluciona o fresco com o uso do "azul ultramarino" (lapislázuli) extremamente dispendioso para o fundo, criando uma profundidade infinita. Abandona os enquadramentos arquitetónicos para deixar que os corpos nus estruturem o espaço pela sua única massa. O seu estilo "terribilità" exprime-se no tratamento anatómico exagerado, onde cada músculo é tenso até à inverosimilhança para significar a força espiritual. Os escorços audazes e as poses contorcidas prefiguram o Barroco. A técnica do "buon fresco" é levada aos seus limites, com o artista trabalhando muitas vezes sozinho, preso de um fervor criativo que roça o êxtase místico.
Psicologicamente, a obra é um autorretrato da angústia. Miguel Ângelo explora o medo universal do nada e a esperança da redenção. A nudez dos corpos, que causou escândalo, não era para ele um prazer estético, mas uma necessidade teológica: perante Deus, o homem está despojado de títulos e vestimentas. A tensão entre os eleitos que lutam para subir e os condenados que se agarram à terra exprime a dualidade da condição humana. É uma obra de transição psicológica, marcando a passagem do humanismo confiante do século XV para a espiritualidade atormentada e autoritária da Contra-Reforma.
Um dos segredos mais fascinantes reside no autorretrato oculto de Miguel Ângelo. Na pele esfolada segurada por São Bartolomeu, reconhecem-se os traços deformados do artista. É um testemunho pungente do seu sofrimento físico e moral, sentindo-se ele próprio como um despojo vazio perante o julgamento divino. Análises recentes por infravermelhos também mostraram que Miguel Ângelo pintou sem cartões preparatórios para muitas figuras, agindo por puro instinto escultural diretamente sobre o reboco fresco, uma proeza técnica quase sobre-humana.
Outro mistério diz respeito à censura. Pouco depois da morte do artista, o Concílio de Trento ordenou cobrir as nudeses "obscenas". Daniele da Volterra foi encarregado de pintar as "braghe" (calças), o que lhe valeu a alcunha de "Il Braghettone". Durante a grande restauração dos anos 90, os restauradores tiveram de decidir que retoques conservar. Mantiveram os de Volterra como testemunho histórico do clima da Contra-Reforma, mas eliminaram as adições posteriores do século XVIII, revelando a potência cromática original do mestre.
Finalmente, as análises científicas dos pigmentos revelaram vestígios de betume e fuligem de vela, mas sobretudo um uso complexo da luz direcional. Miguel Ângelo desenhou as sombras das personagens em função da luz real proveniente das janelas da capela, criando uma ilusão de relevo tridimensional. A figura de Minos, com orelhas de burro e enrolada por uma serpente, é na realidade um retrato satírico de Biagio da Cesena, o mestre de cerimónias do Papa que tinha criticado a obra, um segredo que ilustra o humor negro do génio.
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