Rococó1752

A Odalisca Loira

François Boucher

O olhar do curador

"Note o contraste flagrante entre a pele de alabastro da modelo e a luxuosa desordem das sedas. A postura, vista de costas, quebra os códigos do nu académico para instaurar uma intimidade voyeurística quase palpável."

O arquétipo do génio erótico do Rococó, capturando a juventude de Marie-Louise O'Murphy num audacioso abandono carnal. Uma obra que funde a trivialidade de um boudoir parisiense com a suprema sofisticação pictórica de Boucher.

Análise
Esta obra, pintada em 1752, representa Marie-Louise O'Murphy, uma jovem irlandesa que se tornou uma das "pequenas amantes" de Luís XV. Nesta época, Boucher está no auge da sua glória e redefine o género do nu. Ao contrário dos nus da Renascença que procuravam uma perfeição matemática ou divina, Boucher explora aqui uma sensualidade naturalista e imediata. O corpo já não é uma alegoria, é uma presença física vibrante, sublinhada por uma luz difusa que parece emanar da própria carne. A análise iconográfica revela uma subversão dos temas clássicos. Embora o termo "Odalisca" remeta para o orientalismo e para os haréns, não há aqui qualquer atributo exótico real. É uma odalisca "à francesa", situada num interior contemporâneo rocaille. Este deslizamento semântico permite a Boucher justificar o erotismo do tema através de um verniz cultural distante, oferecendo ao mesmo tempo ao espectador uma cena de uma modernidade radical para o século XVIII. A nudez está aqui desprovida da protecção da mitologia, o que torna a obra ao mesmo tempo mais íntima e mais provocadora. O contexto sociopolítico é também crucial. Esta pintura destinava-se a um consumo privado, provavelmente para o prazer exclusivo do Rei ou de um grande senhor. Testemunha a liberdade de costumes da corte de Versalhes sob Luís XV, onde o prazer se torna um valor estético central. Boucher utiliza a sua virtuosidade técnica para transformar um tema potencialmente vulgar numa obra-prima de delicadeza, onde cada dobra de tecido e cada reflexo de luz contribui para uma atmosfera de voluptuosidade refinada. Finalmente, a explicação do mito da "beleza pura" é aqui posta em causa. Boucher não procura idealizar os traços de Marie-Louise segundo os cânones gregos, mas sim capturar a frescura e a vulnerabilidade da adolescência. É uma celebração do instante efémero, uma ode à juventude que se inscreve perfeitamente na filosofia hedonista do Rococó, onde o belo se confunde com o agradável e o desejo.
O Segredo
O segredo mais célebre ligado a esta tela é o seu papel de "catálogo" para Luís XV. Conta-se que foi ao ver este retrato que o Rei, seduzido pela beleza da jovem, decidiu instalá-la no Parc-aux-Cerfs, a sua residência privada para jovens raparigas. Marie-Louise tinha apenas 14 ou 15 anos durante a pose, um detalhe que sublinha a realidade por vezes brutal por trás do refinamento dos pincéis de Boucher. Um segredo técnico reside no uso da cor azul para as sombras da carne. Boucher, precursor dos impressionistas sem o saber, compreendeu que as sombras não são pretas mas sim coloridas. Ao utilizar velaturas azuladas e acinzentadas para as zonas de transição do corpo, acentua por contraste o calor dos tons rosados e amarelados das partes iluminadas, dando à pele aquele aspecto de porcelana viva tão característico. Outro segredo diz respeito à desordem do quarto. Embora os lençóis amarrotados e o livro atirado ao chão sugiram uma actividade recente, estão na realidade dispostos segundo uma encenação muito rigorosa. Nada é deixado ao acaso: o livro aberto é um aceno à educação sentimental, e a maçã meio escondida evoca o fruto proibido, transformando este boudoir num novo jardim do Éden laicizado. Finalmente, existe uma versão gémea deste quadro, "A Odalisca Morena", pintada alguns anos antes. A comparação das duas obras revela que Boucher utilizava esquemas de composição pré-estabelecidos que adaptava segundo as modelos. O segredo da sua produtividade fenomenal residia nesta capacidade de reciclar as suas próprias invenções insuflando-lhes uma alma nova pela magia do colorido e do toque.

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A nível técnico, que audaciosa inovação cromática utiliza Boucher na representação das sombras da carne de Marie-Louise O'Murphy para acentuar o aspeto de "porcelana viva"?

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Instituição

Alte Pinakothek

Localização

Munich, Alemanha